Através da ACED fazemos eco de mais injustiças que pairam nas prisões .
"Negligência de socorro em Vale de Judeus
Na noite de dia 18 Jan, o recluso Tiago Filipe Teixeira Félix
cortou-se com uma lâmina no braço, automutilando-se. Esperou uma hora pela
chegada de guardas para lhe prestarem assistência. O sangramento, claro, foi
importante e perigoso para a sua vida. Este episódio é reflexo da tensão
existente e contribui para a aumentar. Reflexo da incapacidade do sistema de
assegurar respeito pela condição dos presos, seja por falta de recursos, por
falta de vontade, espírito punitivo ou tudo isso junto."
"Fome em Vale de Judeus (continuação)
Chegou-nos a informação que o chefe de guardas teria sido
afastado depois de uma inspecção da ASEA à cozinha daquele estabelecimento.
Recordamos que há mais de um mês começaram chegar queixas de reclusos
castigados por reclamar da alimentação. Consta agora que o afastamento do chefe
se deve ao facto de estar a tirar proveito pessoal da autorização que daria à
escassez de comida no estabelecimento.
A confirmar-se esta informação, há todo um enquadramento
novo tanto quanto para o nível de fome por que se destacou Vale de Judeus
doutras cadeias onde os alimentos parecem também não ser abundantes e quanto
à estratégia de repressão da forma de protestar dos reclusos, levados para as
celas disciplinares.
A ACED pede a quem de direito que esclareça os factos que já
foram apurados a respeito deste caso e que informe dos procedimentos que venham
a ter lugar na sequência do que for apurado. "
"Telemóvel em Alcoentre (continuação da perseguição)
Luís Filipe Marques da Silva está preso em Alcoentre. É
analfabeto. Pai de quatro filhos. E inquieto com a sorte da família.
Pede para ser protegido contra as ameaças verbais e físicas
de guardas, para poder continuar a trabalhar e a estudar conforme fazia há
poucos meses atrás e para não ser perseguido, até que cumpra o que lhe resta da
pena.
Percebe o que se passa à sua volta. Quando lhe vieram dizer
que tinham encontrado um telemóvel, localizada numa cela com outros presos,
percebeu logo o que se poderia passar. Por isso podemos escrever, então, a 23 de
Outubro, na sequência de outras mensagens sobre o caso:
Tudo se está a passar conforme previsto e antecipado nos
ofícios anteriores. A pretexto da presença de um telemóvel de Nuno Santos,
companheiro de cela de Luís Silva que acaba de sair em fim de pena, o próprio
ficará a cumprir oito dias de castigo. Nem a audição de Nuno Santos no processo
de averiguações (que terá confirmado o telemóvel ser seu) impediu a perseguição
de prosseguir.
Efectivamente sabe hoje que além do companheiro de cela
indicado, outro igualmente envolvido no processo saiu aos 2/3 da pena. Imagina o
Luís que seja o facto de não aceitar a injustiça que o tem levado a esta
situação. Porque não vê outra razão. Mas não se consegue calar. Isso mesmo
parece ter constatado o TEP, curiosamente. Diz um trecho que nos chegou da
inspecção, de autoria do TEP:
Consultou a
memória do referido aparelho e constatou que no mesmo se encontravam gravadas
fotografias do mesmo (e de outras pessoas não identificadas e também uma
fotografia do braço de alguém que não conseguiu identificar), o que indicia que
era utilizado pelo impugnante.
Não é preciso ser proprietário do objeto proibido para
preencher a referida previsão legal, bastando ser mero detentor, seja por se
utilizar o mesmo, por se estar a fazer um favor a alguém ou por qualquer outra
motivação. O que importa é que se guarde ou detenha (no sentido de ter um poder
de facto sobre o objeto) o objeto proibido, sendo a motivação irrelevante. Em
suma, o recluso Luís Filipe Marques da Silva praticou a infração disciplinar em
que se alicerçou a decisão impugnada
A natureza da infração em causa, o grau de culpa do
recluso e a personalidade manifestada no facto de posteriormente à apreensão
ter passado a dizer, contra todas as evidências, que não tinha o telemóvel
dentro das cuecas, nada há a criticar tanto no que concerne à escolha da medida
como em termos de fixação de respetivo quantum, que é o habitual para situações
idênticas.
Não nos cabe aqui discutir se a imagem do recluso
na memória do telemóvel prova que ele o usou ou se com ele fez favores (de
posar para a fotografia?). Basta-nos reconhecer que não se tem calado, nem face
ao tribunal, a reclamar a sua inocência.
Na verdade parece ser certo que o telemóvel em
causa terá sido entregue (com outro telemóvel) ao seu dono, na ocasião em que
saiu da cadeia. E mais certo ainda que a revolta de Luís não o deixa sossegado,
ao ponto de estar a ser ameaçado de pancada por um grupo de cinco guardas que
ontem procurou entrar na sua cela depois do fecho. Apenas o facto de se ter
barricado evitou o desfecho, que evidentemente teme poder vir a acontecer a
qualquer momento e para o que pede protecção.
Os insultos ao recluso são de tal maneira vulgares
que a própria família já os testemunhou. A partir do episódio do telemóvel, as
quatro crianças seus filhos são revistados com desnudamento e apalpação de cada
visita. Quando a família entrega as suas coisas e diz que é para o 39 (em
Alcoentre, apesar da proibição tudo como antes) imediatamente vozes intimidatórias
se levantam e um dia obrigaram a tirar uns gramas de carne que passaria do kilo
permito. Os olhares de intimidação para a família parecem armas de arremesso.
Na verdade, o chefe de guardas já terá explicado ao
próprio recluso que há uma ordem para lhe fazerem a vida negra e que nem os 5/6
(o fim da pena) deve tomar por assegurados. Previsão que vamos ver se se
concretiza ou não. Porque se nas vésperas de ir ao juiz para liberdade
condicional (que foi concedida ao seu companheiro de cela) lhe aconteceu ser
plantado um telemóvel na cama (a explicação que Luis encontra é o facto de a
única tomada de corrente disponível estar junto da sua cama), e se depois
assistimos a todo o aparato de que acima damos uma ideia, não está descartada a
possibilidade de virmos a ouvir do recluso a queixa de alguma acção contra si
que o remeta para uma prisão preventiva, por exemplo (estamos a lembrarmo-nos
de casos semelhantes que nos foram contados de perseguições que prolongam no
tempo).
O Luís quer trabalhar ou ir à escola, como fazia
antes de ser castigado e enviado para o interior da prisão, pela ocupação e
para mostrar que está disponível para integrar a sociedade. Essa possibilidade
está a ser-lhe recusada. Enquanto noutros casos recentes sim, os telemóveis
continuam a circular em Alcoentre passado o tempo do castigo os reclusos
voltaram ao RAI. Mas esse não foi o caso do Luís.
A irmã do Luís, preocupada com a situação, procurou
falar com a educadora, Drª Sandra, e conseguiu. Explicou-lhe esta que o chama
todas as semanas mas este nunca está na ala e por isso não o tem visto. É
natural que esta resposta seja incompreensível para uma pessoa de sensibilidade
normal que procura apoios para uma situação difícil. Ao pedir mais esclarecimentos
e ao pedir para ajudar o irmão, ouviu a resposta de que ela (a educadora) é que
sabia o que devia fazer. Quando informou a educadora de que o irmão só tinha
acesso a água fria, esta ter-lhe-á perguntado que se queria que fosse dar banho
ao irmão.
Actualmente Luís está na Ala B, de onde estão a ser
conduzidos pessoas com problemas de adição com drogas. Estão a ser deslocados
para outra ala os presos que anteriormente ali estavam. Luís teme não ir chegar
a sua vez de ser transferido para um espaço onde não seja obrigado a
confrontar-se com essa doença. "
"Discriminação em Coimbra (resposta à
conclusão obtida)
A ACED
é uma organização não governamental que há mais de 16 anos cumpre um serviço
público que as leis da AR parecem querer estabelecer mas o sistema prisional
não é capaz de realizar. A ACED aceita denúncias, queixa e lamentos, pedidos de
ajuda, declarações de revolta e apelos aos sentimentos humanitários que
deveriam poder ser canalizados para as direcções das cadeias, para as
diferentes agências com competências de auditoria e inspecção dos serviços
prisionais, para o ministério da tutela. A ACED só se mantém activa porque
esses serviços ainda que aparentemente disponíveis simplesmente não cumprem
as funções que poderiam cumprir, em particular a de levar a sério as
informações e comunicações que lhes chegam dos presos.
O caso
presente é apenas um exemplo disso. Que só é mais evidente porque a rotina de
desvalorizar e desqualificar não apenas as comunicações das pessoas presas mas
as próprias pessoas presas, em si, se tornou tão banal Hannah Arendt, a
propósito de outro assunto chamou-lhe banalidade do mal que parece legítimo
discriminá-las.
A lei
diz que um preso não pode sofrer castigos disciplinares com uma duração acima
de tantos dias. Mas as instituições portuguesas descobrem que tantas vezes
esses tantos dias não é nenhuma violação da lei. E para que não haja dúvidas
sobre que a violação da lei não é violação da lei, põem a vítima a papaguear
aquilo que não sendo um testemunho válido em lado nenhum onde haja decência
é tomado como a comprovação da alegada conspiração da ACED contra o Estado
português e as suas prisões (assunto tratado noutro lugar com algum detalhe e
que aqui não tratamos).
A ACED
soube que Oliveira esteve 45 dias de castigo. Informou as autoridades. Estas
inspeccionaram e concluíram que sim, tinha estado 45 dias de castigo. Mas não é
ilegal porque houve uns dias de intervalo, para salvaguardar as aparências, e
isso é quanto bastaria. Agora a maior dificuldade presumimos, com base na
experiência que temos de ler estas respostas e estes relatórios é dar razão a
uma queixa. É que a queixa refere-se à legitimidade de usar esse subterfúgio de
ter uma pessoa em situação de castigo por um período superior ao tempo
legalmente permitido, recorrendo à interrupção do castigo em tempo útil e
recomeçando a contagem do tempo imediatamente a seguir. A essa questão, à
questão que nos parece ter sido posta, nenhuma resposta foi dada. A resposta informa
que o recluso declarou não ter sido ele o autor da queixa, ao contrário do que
consta na queixa.
Isto é,
podemos presumir que as entidades tutelares e inspectivas aceitam que os
serviços prisionais podem desrespeitar o espírito da lei desde que disponham de
uma qualquer forma de justificar escapar-lhe, com base na lei. O que mais lhes
interessa saber é o circuito de informação utilizado pela ACED para saber o que
se passou.
De
outro modo porque se dariam os inspectores ao trabalho de trazer à liça
informação como aquela que carrearam? Que interessa saber quem canalizou a
queixa para a ACED, se a vítima, um prisioneiro ou um guarda? Que interessa o
pedido que o preso tenha feito para cumprir as penas todas de seguida, se só
agora sabemos disso e isso não ficou registado em lado nenhum suficientemente
credível para que seja impossível pensar que o interrogatório a que foi sujeito
no âmbito da inspecção não foi mais um acto de revitimização do recluso?
Em
resumo: a interpretação que a inspecção fez da queixa canalizada pela ACED não
corresponde ao problema em causa, a saber, o abuso de poder praticado à sombra
da interpretação formalística das leis, bastamente denunciado como prática
corrente no sistema judicial em Portugal, com desprezo substantivo do sentido
útil da legislação. Mas corresponde à inspecção do texto da ACED no sentido de
identificar a fonte identificada no texto e de a levar a dizer o que a
inspecção quer que se diga. Imaginando que descredibiliza a ACED assim.
A
inspecção inspecciona os queixosos em vez de inspeccionar os serviços?
Curiosamente é isso que ocorre também nos tribunais a que temos sido
encaminhados, aqui na associação por causa do trabalho que desenvolvemos.
Há uma
conformidade e é com essa que urge romper entre as práticas carcerárias e
as práticas inspectivas no sentido de demonizar os presos e a ACED, como
inventores de problemas, e santificar as autoridades carcerárias como
respeitadores das leis e vítimas das liberdades de contestação oferecidas pelos
direitos de livre expressão. Há um incómodo, apenas por vezes expresso, perante
o facto de haver uma associação que cumpre o trabalho que o Estado poderia
muito bem cumprir receber e tratar com seriedade as queixas dos presos, sem
represálias nem intimidações mas prefere não o fazer. Por isso existe a ACED,
e mais ACEDs existiriam não fosse o clima intimidatório que mesmo fora das
prisões se faz sentir, nomeadamente a nível dos próprios tribunais criminais.
Ora,
aqui chegados devemos rever a matéria. Devemos afirmar ser nossa experiência,
na associação, receber queixas que não podemos encaminhar porque as pessoas em
causa ficam em risco de não serem suficientemente fortes para resistirem às
intimidações. Como temos experiência de pessoas que resistem durante meses a
queixar-se para evitar represálias e só o fazem em desespero de causa. Não
temos dúvidas quem pode tê-las? de existir um clima intimidatório nas
prisões e em volta delas.
Sendo
assim, que sentido faz um inspector (ou uma senhora inspectora) dirigir-se a um
recluso sobre o qual foram aplicados 3 castigos consecutivos e perguntar se
está de acordo com isso? E que sentido faz perguntar se conhece a ACED? Que
resposta poderia alguém obter nessas circunstâncias? (Admitimos não estar a
citar correctamente as perguntas efectuadas, por não termos tido acesso a elas.
Mas as perguntas correspondem às respostas obtidas e referidas no relatório.
Pelo que se não foi este o texto terá sido um texto equivalente. E falta saber
a linguagem corporal utilizada).
Insistimos
neste ponto: muitas das queixas que canalizamos para as autoridades não merecem
apenas uma breve atenção de circunstância nem o desprezo que se costuma
atribuir a quem não gostamos. O Estado tem obrigação de tratar todos os
cidadãos, incluindo os presos, por igual e de acordo com os direitos humanos e
as leis em vigor. Esperar que um dia seja capaz de o fazer é pedir demais?"
A reaparição do Subcomandante Marcos nos 20 anos do levante zapatista
Por Eduardo Febbro
"Às vésperas de se completarem duas décadas do levante zapatista, o subcomandante Marcos reapareceu com um novo e extenso comunicado .
San Cristobal de las Casas – A prosa está intacta. Sutil e envolvente como o sol da tarde que envolve a praça central de San Cristobal de las Casas. Às vésperas de se completarem duas décadas do levante zapatista, o subcomandante Marcos reapareceu com um novo e extenso comunicado semeado com a ideia da “memória e da rebeldia”.
Na abertura, Marcos cita a novela do escritor norte-americano Herman Melville, Moby Dick. Encontro de uma prosa com outra: “Me parece que temos confundido muito esta questão da Vida e da Morte. Me parece que o que chamam de minha sombra aqui na terra é minha substância autêntica”, diz a prosa de Melville. A de Marcos completa o resto do comunicado. O subcomandante, que há uns cinco anos não aparecia em público, escreve: “É território zapatista, é Chiapas, é México, é América Latina, é a Terra. E é dezembro de 2013, faz frio como há 20 anos, e, como então, hoje há uma bandeira que nos cobre: a da rebeldia”.
Em outro momento de seu comunicado, Marcos acrescenta: “Porque a rebeldia, amigos e inimigos, não é patrimônio exclusivo dos neozapatistas. Ela é patrimônio da humanidade. E isso é algo que é preciso celebrar. Em todas as partes, todos os dias e em todas as horas. Porque a rebeldia é também uma celebração. Não são poucas nem débeis as pontes que, desde todos os rincões do planeta Terra, se estenderam até estes solos e céus. Às vezes com olhares, às vezes com palavras, sempre com nossa luta, temos nos cruzado para abraçar esse outro que resiste e luta”.
Ao longo do texto em que se alternam parágrafos poéticos, guerreiros ou irônicos, o Subcomandante zapatista presta homenagem a todos aqueles que, de uma maneira ou de outra, acompanharam o levante de 20 anos atrás: “Aos que, durante a noite, colocaram nas costas a mochila e a história, aos que tomaram com as mãos o relâmpago e o trovão, aos que calçaram as botas sem futuro, aos que cobriram o rosto e o nome, aos que, sem esperar nada em troca, morreram na longa noite para que outros, todos, todas, em uma manhã ainda por vir, possam ver o dia como é preciso fazê-lo, ou seja, de frente, de pé, com o olhar e o coração erguidos. Para eles, nem biografias nem museus. Para eles, nossa memória e rebeldia. Para eles nosso grito: Liberdade! Liberdade! Liberdade! Saúde e que nossos passos sejam tão grandes como nossos mortos”.
Marcos se pronunciou igualmente com um tom crítico contra todos os mandatários que ocuparam a presidência do México desde que surgiu o Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN): Carlos Salinas de Gortari, Ernesto Zedillo, Vicente Fox, Felipe Calderón e Enrique Peña Nieto. “Vicente Fox é a prova de que o posto de presidente de uma república e de uma filial de uma fábrica de refrigerantes é intercambiável...e que ambos os postos podem ser ocupados por inúteis; Felipe Calderón Hinojosa foi um “presidente valente” (para que outros morressem) e não um psicopata que roubou a arma (a presidência) para seus jogos de guerra (...) e que terminou sendo o que sempre foi: um empregado de segunda em uma multinacional. A propósito do atual presidente, Enrique Peña Nieto, cuja candidatura marcou o regresso do PRI ao poder após 14 anos na oposição, o Subcomandante questionou as reformas que vem adotando desde que foi eleito em fevereiro de 2012, particularmente aquelas no setor da energia:
“Enrique Peña Nieto será um presidente culto e inteligente (bom, é ignorante e tonto, mas hábil), é o novo perfil que se constrói nos grupinhos de analistas políticos, e não um analfabeto funcional”.
O tom deste comunicado é muito menos duro do que o que emitiu no final de 2012. Neste momento e já com o PRI no poder, o EZLN saiu a público, primeiro no dia 21 de dezembro com uma mobilização silenciosa da qual participaram cerca de 40 mil pessoas com o rosto coberto com o famoso gorro dos zapatistas. Nesta ocasião, o líder insurgente emitiu um comunicado onde perguntava: Escutaram? O som de seu mundo ruindo é o do nosso ressurgindo. A marcha do dia 21 foi a maior mobilização protagonizada pelos zapatistas desde que pegaram em armas no dia 1º de janeiro de 1994. Agora chega, pontual e esperado, esse aniversário.
Duas décadas de lutas, de mortos, de injustiças e repressão ao cabo das quais as palavras e o combate seguem vivos.
Segue a íntegra do novo comunicado do Subcomandante Marcos."
QUANDO OS MORTOS CALAM EM VOZ ALTA
(No que se reflete sobre @s ausentes, as biografias, narra o primeiro encontro de Durito com o Gato-Perro, e fala de outros assuntos que não vem ao caso, ou coisa, segundo irá ditando o pós-data impertinente)
Novembro - Dezembro de 2013.
Me parece que confundimos muito esta questão da Vida e da Morte. Me parece que o que chamam minha sombra aqui na terra é minha substância autêntica. Me parece que, ao ver as coisas espirituais, somos demasiado como ostras que observam o sol através da água e pensam que a densa água é a mais fina das atmosferas. Me parece que meu corpo não é mais que as fezes de meu melhor ser. De fato, que leve meu corpo quem queira, que o leve, digo: não sou eu.
Herman Melville “Moby Dick”.
Já faz um bom de tempo que sustento que a maioria das biografias não são mais que uma mentira documentada, e às vezes, não sempre, bem redigida. O biógrafo médio tem uma convicção prévia e a margem de tolerância é muito reduzida, quando não inexistente. Com essa convicção começa a movimentar o quebra-cabeças de uma vida que lhe é alheia (por isso seu interesse em fazer a biografia), e vai coletando as peças falsas que o permitam documentar sua própria convicção, não a vida resenhada.
O certo é que talvez pudéssemos conhecer com certeza data e lugar de nascimento e, em alguns casos, data e lugar de falecimento. Fora isso, a maioria das biografias deveriam estar no ramo de “histórias noveladas” ou “ficção-científica”.
O que sobra então de uma vida? Pouco ou muito, dizemos nós.
Pouco ou muito, dependendo da memória.
Ou, melhor, dos fragmentos que na memória coletiva essa vida imprimiu.
Se isso não vale para biógrafos e editores, pouco importa para o comum das pessoas.
Costuma acontecer que o que realmente importa não aparece nos meios de comunicação, nem se pode medir em pesquisas.
Logo, de uma pessoa ausente só temos peças arbitrárias do complexo quebra-cabeças feito de farrapos, rasgos e tendências que se conhecem como “vida”.
Assim que, com esse início confuso, permitam-me levantar algumas dessas peças fragmentadas para abraçar e abraçarmos pela passagem que hoje nos falta e necessitamos…
Um concerto no silêncio mexicano. Don Juan Chávez Alonso, purépecha, zapatista e mexicano, faz um gesto como se estivesse afastando de si um inseto incômodo. É sua resposta à desculpa que lhe dou por uma de minhas torpes grosserias. Estamos em território Cucapá, no meio de um terreno arenoso. Nessas coordenadas geográficas e quando no calendário se assinala a Sexta 2006 no Noroeste do México, na grande barraca de campanha que lhe serve de hospedagem, Don Juan toma o violão e pergunta se queremos escutar algo que compôs. Apenas afina e inicia um concerto que, sem letra alguma, narra o levantamento zapatista desde primeiro de janeiro de 1994 até a presença da Comandanta Ramona na formação do Congresso Nacional Indígena.
Um silêncio depois, como se fosse uma nota mais.
Um silêncio no qual calavam em voz alta nossos mortos.
Também no noroeste mexicano, a loucura sangrenta do Poder pinta de absurdos ainda impunes o calendário abaixo. 5 de junho de 2009. A cobiça e o despotismo governamentais lançaram fogo a uma creche para infantes. As vítimas mortais, 49 meninos e meninas, são as baixas colaterais quando se destroem arquivos comprometedores. Ao absurdo de que os pais sepultem os filhos, segue o de uma justiça débil e corrupta: os responsáveis não recebem uma ordem de apreensão mas cargos no gabinete do criminoso que, sob o azul da Ação Nacional, tratará de ocultar o banho de sangue no qual sumiu ao país inteiro.
Onde os biógrafos encerram suas anotações “porque uns poucos anos de vida não são rentáveis”, a história de baixo abre seu caderno de outros absurdos: com sua injusta ausência, essas crianças pariram outros homens e mulheres. Seus pais e mães levantam desde então a demanda da justiça maior: a de que a injustiça não se repita.
“O problema com a vida é que ao final te mata”, havia dito Durito, cujas fantasiosas histórias cavalheirescas tanto divertiam Chapis. Ainda que ela tenha perguntado, com essa impertinente mistura de ingenuidade e sinceridade que desconcertava quem não a conhecesse, “e por que um problema?”. Don Durito da Lacandona, escaravelho de origem e de ofício cavaleiro andante, teria evitado polemizar com ela, posto que, segundo um suposto regulamento da cavalaria andante, não se deve contradizer uma dama, (sobretudo se a dama em questão tem boas influências “muito acima”, agregava Durito que sabia que a Chapis era religiosa, monja, irmã, ou como queiram vocês chamar as mulheres que fazem da fé, sua vida e profissão).
A Chapis não nos conhecia. Quero dizer, não como quem nos vê de fora e sobre nós escreve, fala… ou mal fala (agora vocês veem como são passageiras as modas). A Chapis era com nós. E era muito tempo antes de que um escaravelho impertinente se empessoasse nas montanhas do sudeste mexicano para declarar-se cavaleiro andante.
E, talvez por ser em nós, era que a Chapis não parecia se inquietar tanto com isso de vida e morte. Como essa atitude tão nossa, dos neozapatistas, em que tudo se inverte e não é a morte que a preocupa e ocupa, mas a vida.
Mas a Chapis não era só em nós. É claro que fomos só uma parte de seu andar. E se agora lhes conto algo dela não é para dar apontamentos para sua biografia, mas para dizer o que aqui sentimos. Porque a história desta crente, sua história conosco, é das que fazem duvidar os fanáticos ateus.
“A religião é o ópio dos povos”? Não sei. O que sei é que a explicação mais brilhante que escutei sobre a destruição e despovoamento que a globalização neoliberal opera em um território foi dada, não por um teórico marxista-leninista-ateísta-e-alguns-istas-mais, mas… um padre cristão, católico, apostólico e romano, aderente à Sexta, e desterrado pelo alto clero (“por pensar muito”, me disse como pedindo desculpas) a um dos desertos geográficos do planalto mexicano .
Acho (talvez me engane, não seria a primeira vez e, seguramente, não será a última), que muitas pessoas, senão todas, que se aproximaram do que se conhece como neozapatismo, o fizeram buscando respostas a perguntas feitas nas histórias pessoais de cada um, segundo seu calendário e geografia. E que demoram apenas o indispensável para encontrar a resposta. Quando se deram conta de que a resposta era o monossílabo mais problemático da história, viraram para o outro lado e para lá se puseram a andar. Não importa quanto digam e se digam que continuam estando aqui: foram embora. Umas pessoas mais rápido que outras. E a maioria delas não nos olham, ou o fazem com a mesma distância e desdém intelectual que os que hastearam calendários antes que amanhecesse o janeiro de 1994.
Acho que já disse antes, em alguma outra missiva, não estou seguro. Mas como queira digo, ou repito aqui, que esse perigoso monossílabo é “tu”. Assim, com minúsculas, porque essa resposta era e é íntima a cada um. E cada um a toma com o terror respectivo.
Porque a luta é coletiva, mas a decisão de lutar é individual, pessoal, íntima, como o é a de seguir ou claudicar.
Digo que as poucas pessoas que ficaram (e não me refiro à geografia, mas ao coração) não encontraram essa resposta? Não. O que trato de dizer é que a Chapis não veio procurando essa resposta à sua pergunta pessoal. Ela já conhecia a resposta e havia feito desse “tu” seu caminho e meta: seu ser crente e consequente.
Muitas outras, muitos outros como ela, mas diferentes, já haviam se respondido em outros calendários e geografias. Ateus e crentes. Homens, mulheres e outr@s de todos os calendários. São esses, essas, ess@s, que sempre, vivos ou mortos, se colocam frente ao Poder, não como vítimas, mas para desafiá-lo com a múltipla bandeira da esquerda de baixo. São nossas companheiras, companheiros e companheir@s… ainda que na maioria dos casos nem el@s nem nós o saibamos… ainda.
Porque a rebeldia, amigos e inimigos, não é patrimônio exclusivo dos neozapatistas. É da humanidade. E isso é algo que temos que celebrar. Em todos os lugares, todos os dias e a todas as horas. Porque a rebeldia é também uma celebração.
Não são poucas nem débeis as pontes que, desde todos os cantos do planeta Terra, seestenderam até estes solos e céus. Às vezes com olhares, às vezes com palavras, sempre com nossa luta, atravessamos todos para abraçar a este outro que resiste e luta.
Talvez disso e não de outra coisa se trata o de “ser companheiros”: de atravessar pontes.
Como neste abraço feito letras para as irmãs da Chapis que, como nós, tem saudades e, como nós, precisam dela.
A impunidade, querido Matías, é algo que só a justiça pode outorgar; é a Justiça exercendo a injustiça”. Tomais Segovia, em “Cartas Cabales”.
Já disse antes que, segundo minha humilde opinião, cada um é o herói ou a heroína de sua própria história individual. E que na sedativa auto complacência de narrar “esta é minha história pessoal”, se editam fatos e não-fatos, se inventam as fantasias mais incríveis, e o narrar anedotas se parece demasiadamente ao fazer contas do avarento que rouba o alheio.
O ancestral afã de transcender à morte própria encontra nas biografias o substituto ao elixir da eterna juventude. Claro, também na descendência. Mas a biografia é, para dizer de alguma forma, “mais perfeita”. Não se trata de alguém que se parece, é o “eu” alongado no tempo graças à “magia” da biografia.
Acudiu o biógrafo de cima a documentos da época, talvez a testemunhos de familiares, amigos ou companheir@s da vida cuja morte se apropria. Os “documentos” têm a mesma certeza que os prognósticos meteorológicos, e os testemunhos obviam a delgada separação entre o “eu acho que…” e o “eu sei que…”. E então a “veracidade” da biografia se mede pela quantidade de notas de rodapé. Para as biografias vale o mesmo que para as faturas de gasto em “imagem” governamental: quanto mais volumosas, mais certas.Na atualidade, com a internet, os tuiters, os feisbuc e equivalentes, os mitos biográficos arredondam suas falácias e, voilá, se reconstrói a história de uma vida, ou fragmentos dela, que pouco ou nada têm a ver com a história real. Mas não importa, porque a biografia está publicada, impressa, circula, é lida, citada, recitada… como a mentira.
Cheque você nas modernas fontes documentais das biografias futuras, ou seja, Wikipedia e os blogs, Facebook e os “perfis” respectivos. Agora compare com a realidade:
Não lhe dão calafrios ao dar-se conta de que, talvez, no futuro…
Carlos Salinas de Gortari será “o visionário que entendeu que vender a uma Nação era, além de um negócio familiar (claro, entendendo como família a sanguínea e a política), um ato de patriotismo moderno”, e não o líder de uma gangue de traidores (não se façam, aí andam, na oposição “madura e responsável”, vári@s daqueles que apoiaram a reforma ao artigo 27 constitucional, o separador de águas da claudicação do Estado Nacional no México);
Ernesto Zedillo Ponce de Leão não será o “homem de Estado” que levou toda uma Nação de uma crise a outra pior (além de ser um dos autores intelectuais, junto com Emilio Chuayffet e Mario Renán Castillo, do massacre de Acteal), mas que levou “as rendas do país” com um singular sentido do humor… para terminar sendo o que sempre foi: um empregado de segunda em uma multinacional;
Vicente Fox será a amostra de que o cargo de presidente de uma república e de uma filial de sombra é intercambiável… e que ambos os cargos podem ser ocupados por inúteis;
Felipe Calderón Hinojosa será um “presidente valente” (para que outros morressem) e não um psicopata que roubou a arma (a presidência) para seus jogos de guerra… e que terminou sendo o que sempre foi: um empregado de segunda em uma multinacional;
Enrique Peña Nieto será um presidente culto e inteligente (“bom, é ignorante e bobo, mas hábil”, é o novo perfil que lhe constroem nos jograis de analistas políticos), e não um analfabeto funcional (nem modo, como diz o provérbio popular: “o que a natureza não dá, a Monex não compra”) …?
Ah, as biografias. Não poucas vezes são autobiografias, ainda que sejam os descendentes (ou os compinchas) quem as promovam e assim adornam sua árvore genealógica.
Os criminosos da classe política mexicana que mal governaram estas terras continuarão sendo, para aqueles que padeceram seus desmandos, criminosos impunes. Não importa quantas linhas se paguem nos meios de comunicação nem quanto se gaste em espetáculos nas ruas, na imprensa escrita, em rádio e televisão. De los Díaz (Porfirio e Gustavo) aos Calderón e Peña, dos Castellanos e Sabines aos Albores e Velasco, só media a troca (via redes sociais, porque nos meios de comunicação pagos continuam sendo “pessoas responsáveis e maduras”) da ridícula frivolidade dos “Juniors”.
Mas o mundo é redondo e no contínuo sobe e desce da política de cima, se pode passar, em pouco tempo, da capa da revista “Hola”, ao “PROCURA-SE: CRIMINOSO PERIGOSO”; da patuscada de dezembro do TLC à crua do levantamento zapatista; do “homem do ano” à “greve de fome” com água engarrafada de marca “chic” (não tem jeito, até para os protestos há classes sociais); do aplauso pelas piadas ruins, ao filicídio putativo por concretizar-se; do nepotismo e da corrupção adornados com ocorrências à investigação por ligações com o narcotráfico; dos trajes militares tamanho extra grande, ao exílio temeroso e manchado de sangue; da patuscada de dezembro entreguista a…
Com tudo isso e o que continua digo que não temos que escrever/ler biografias? Não, mas o que faz que ande a velha roda da história são os coletivos, não os indivíduos… ou indivíduas. A historiografia se nutre de individualidades; a história aprende de povos.
/Digo que não temos que escrever/estudar história? Não, mas o que digo é que é melhor fazer da única forma que se faz, ou seja, com outros e organizados.
Porque a rebeldia, amigos e inimigos, quando é individual é bela. Mas quando é coletiva e organizada é terrível e maravilhosa. A primeira é matéria de biografias, a segunda é a que faz história.
E não com palavras abraçamos nossos companheiros e companheiras zapatistas, ateus e crentes:os que de noite puseram a mochila e a história nas costas,
aos que tomaram com as mãos o relâmpago e o trovão,
aos que se calçaram as botas sem futuro,
aos que se cobriram o rosto e o nome,
aos que, sem esperar nada em troca, na longa noite morreram
para que outros, todos, todas, em uma manhã por vir ainda,
possam ver o dia como tem que ser,
ou seja, de frente, de pé e com o olhar e o coração erguidos.
Para eles nem biografias nem museus.
Para eles nossa memória e rebeldia.
Para eles nosso grito:
liberdade! Liberdade! LIBERDADE!
Vale. Saúde e que nossos passos sejam tão grandes como nossos mortos.
O SupMarcos.
P.D. DE INSTRUÇÕES ÓBVIAS - Agora sim, seja tão amável de ler, em calendário inverso, desde Rebobinar 1 até o 3, e talvez assim encontre o gato-perro e algumas dúvidas se esclareçam. E sim, tenha a segurança de que surgirão mais perguntas.
P.D. QUE ATENDE, SOLÍCITA, AOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO PAGOS - Ah! Comovedor o esforço dos contras nos meios pagos para tratar de dar argumentos aos poucos leitores-ouvintes-videntes contras que lhes sobram. Mas, generoso pela época de natal, aqui lhes mando algumas dicas para que usem de material jornalístico:
. - Se as condições das comunidades indígenas zapatistas estão iguais que há 20 anos e nada se avançou em seu nível de vida, por que o EZLN – como fez em 1994 com a imprensa paga - se “abre” com a escolinha para que a gente de baixo veja e conheça diretamente, SEM INTERMEDIÁRIOS, o que existe aqui.
E já posto em “modo interrogativo”, por que no mesmo período se reduziu, também exponencialmente, o número de leitores-ouvintes-telespectadores dos meios de comunicação pagos? Pst, pst, podem responder que não têm menos leitores-ouvintes-telespectadores – isso reduziria a publicidade e o chuchu -, que o que acontece é que agora são mais “seletivos”.
- Vocês perguntam “Que fez o EZLN pelas comunidades indígenas? E nós estamos respondendo com o testemunho direto de dezenas de milhares de nossos companheiros e companheiras.
Agora vocês, os donos e acionistas, diretores e chefes, respondam:
Que fizeram, nestes 20 anos, pelos trabalhadores dos meios de comunicação, um dos setores mais golpeados pelo crime existente e alentado pelo regime a quem tanto adoram? Que fizeram pelos jornalistas, as jornalistas ameaçadas, sequestradas e assassinadas? E por seus familiares? Que fizeram para melhorar as condições de vida de seus trabalhadores? Aumentaram o salário para que tenham uma vida digna e não tenham que vender sua palavra ou seu silêncio frente à realidade? Criaram as condições para que se retirem, depois de anos de trabalhar para vocês, dignamente? Deram-lhes segurança no emprego? Quero dizer, o emprego de um repórter já não depende do humor do chefe de redação ou dos “favores”, sexuais ou de outro tipo, que demandam a todos os gêneros?
Que fizeram para que o ser trabalhador dos meios de comunicação seja um orgulho que não custe a perda da liberdade ou a vida ao ser honesto?
Podem dizer que seu trabalho é mais respeitado por governantes e governados que há 20 anos?
Que fizeram contra a censura imposta ou tolerada? Podem dizer que seus leitores-ouvintes-telespectadores estão mais bem informados que há 20 anos? Podem dizer que têm mais credibilidade que há 20 anos? Podem dizer que sobrevivem graças a seus leitores-ouvintes-telespectadores e não pela publicidade, majoritariamente governamental?
Aí lhes respondem a seus trabalhadores e leitores-ouvintes-telespectadores, assim como nós lhes respondemos aos nossos companheiros e companheiras.
Oh, vamos, não fiquem tristes. Não somos os únicos que escapamos de seu papel de juiz e carrasco, suplicando sua absolvição e recebendo sempre sua pena. Está também, por exemplo, a realidade.
Vale de nove, ou, melhor, de sessenta e nove.
O Sup dizendo-se que é melhor um polegar para baixo que um dedo médio para cima.
É território zapatista, é Chiapas, é México, é América Latina, é a Terra. E é dezembro de 2013, faz frio como há 20 anos, e, como então, hoje uma bandeira nos cobre: a da rebeldia.
