"Dia 7 de Janeiro 5 reclusos foram convidados a fazer o teste de consumo de haxixe. Dois acusaram presença da substância procurada. Os três a quem o teste deu negativo (Nelson n. 164, Hélder n.42 e Hugo n.32), foram visitados antes da abertura das celas de dia 8 para fazerem contra análise. O que provocou mal-estar. Recusaram-se a repetir o teste e pediram para falar com o Director, para exporem as suas razões. 4ª feira foi dia de visita e aproveitaram para pedir aos familiares para falar com o chefe. De onde não resultou nada, pois os familiares não sabiam o que se tinha passado e o chefe continuou a não aceder a ouvir os reclusos.
A história circulava e na hora de almoço os presos manifestaram solidariedade com os três que estavam a pedir para ser ouvidos. Concluíram que não aceitariam comer se não houvesse a garantia de o Chefe receber os reclusos para os ouvir. Como a garantia não chegou, não almoçaram e foram conduzidos às celas.
Na sequência deste protesto os guardas foram buscar às celas e levaram para isolamento os três reclusos acima referidos (que não tiveram nenhuma iniciativa no refeitório, mas estavam no centro do conflito) e mais Marco n. 98, Carlos e outros dois presos, possivelmente escolhidos para exemplo para os outros reclusos. Um destes dois últimos, Luis n. 93, na circunstância de se sentir perseguido reclamou acesso à comunicação com a família e o advogado. Ficou sem acesso ao pátio desde as 13:00 de dia 9, depois de espancado e de lhe terem sido retirados os seus pertences (televisão, roupa e produtos de higiene). Encontra-se actualmente em greve de fome. Nenhum dos presos citados tem informação de que castigo lhes está a ser aplicado, de que são acusados e nenhum se atreve a perguntar seja o que for, perante o exemplo do tratamento dado ao Luis.
Certamente o conflito está longe de estar sanado. É natural que venhamos a ouvir sobre futuros desenvolvimentos. Talvez a versão oficial do caso possa a vir pôr cobro à tensão existente. Quanto à regularidade dos procedimentos, cabe a quem de direito averiguar."
"O fundo de pensões PGGM - o maior da Holanda e um dos maiores do mundo - anunciou a decisão de retirar de cinco bancos israelitas investimentos na ordem de algumas dezenas de milhões de euros. A decisão foi explicada pelo envolvimento dos bancos nas actividades dos colonatos.

Segundo notícia hoje publicada no diário israelita Haaretz, o PGGM tinha contactado os cinco bancos fazendo-lhes notar que a sua ligação aos colonatos criava um problema à luz do direito internacional. O PGGM invocou, concretamente, o veredicto de 2004 do Tribunal da Haia segundo o qual são ilegais os colonatos estabelecidos em território palestiniano ocupado. Invocou também o Artigo 49º da Quarta Convenção de Genebra, segundo o qual "a potência ocupante não pode deportar ou transferir partes da sua própria população civil para os territórios ocupados".Bancos boicotados pelo PGGM
Bank Hapoalim
Bank Leumi
Bank Mizrahi-Tefahot
1st International Bank of Israel
Israel Discount BankA isto responderam os bancos que a lei israelita não lhes permitiria discriminar os colonatos e que, de qualquer modo, a realidade económica impede a recusa de créditos aos ou a aceitação de depósitos dos colonatos.
Perante esta resposta, o PGGM anunciou a decisão de iniciar, a partir de 1 de janeiro de 2014 o desinvestimento nesses cinco bancos. Explicou a decisão com a estratégia de "responsabilidade social" que o grupo delineara recentemente para todos os seus investimentos.
O anunciado boicote aos cinco bancos, no valor de algums dezenas de milhões de euros, é visto em Israel como um golpe de dimensões relativamente modestas - à escala do país, e à escala dos 150.000 milhões de euros que o PGGM gere a nível mundial.
Já a dimensão política do boicote incomoda fortemente o Governo israelita. Segundo o Haaretz, juntam-se no anúncio do PGGM várias circunstâncias preocupantes. Por um lado, ele segue-se a uma série de outros boicotes holandeses. Um deles veio da companhia das águas holandesa, Vitens, contra companhia das águas israelita, Mekorot. Outro veio de uma empresa que cancelou o contrato com outra com a companhia de águas de Jerusalém, Hagihon, para construir uma estação de tratamento de águas residuais em território ocupado.
Mekorot, parceira da EPAL
Boicotada na Holanda pela Vitens, a Mekorot é parceira da homóloga de ambas em Portugal, a EPAL, num contrato que alegadamente terá como objecto a "segurança hídrica"Por outro lado, o Ministério dos Negócios Estrangeiros israelita encara com preocupação a série de boicotes holandeses, que dificilmente poderiam coincidir espntaneamente no tempo. Na raiz do movimento boicotista holandês, considera-se que só pode estar uma atitude favorecida ou influenciada politicamente, a partir do próprio Governo da Haia.
Enfim, considera-se em Israel, segundo o mesmo Haaretz, que é especialmente séria a decisão do PGGM, porque ela não aponta directamente aos colonatos, e sim a cinco entidades que têm relações com estes. Cria-se assim o precedente de penalizar também os vínculos directos ou indirectos com os colonatos, o que equivale a uma considerável ampliação das actividades sancionadas."
Blog RTP
Notícias da prisão de Vale de Judeus via ACED
Fotos da alimentação mais abaixo, castigos disciplinares contra presos na sequência de protestos contra a qualidade e a quantidade da alimentação, garantias de que os protestos não estão em causa nos casos de castigos - parece efectivamente que servem para nada, porque a fome continua - o que é castigada será a forma dos protestos (um método efectivamente muito usado em Portugal para desviar as atenções dos problemas à custa da criminalização do mensageiro), denúncia de racionamento no fornecimento de pão (confirmado com o argumento de que havia presos que açambarcavam o pão e era preciso moralizar isso), suspeitas de haver comida sem condições para ser consumida a ser servida em grandes quantidades para alimentação dos presos - único destes elementos de informação que não apresentámos às autoridades, por falta de elementos mais específicos, tudo isto terá consequências no peso e na saúde dos reclusos. Seguem fotos de presos, um actualmente com metade do peso com que entrou (48 kilos). Outro entrado em 2011 com 70 kilos, actualmente com 53 kilos. Já estará pronto para entrar nos mercados?


Auschwitz, Guantanamo, Abu Grahib não emergiram de práticas quotidianas de respeito pelas pessoas presas.
Emergiram do desprezo popular (e institucional) pelas pessoas condenadas, como se não existissem ou como fossem os mais valiosos receptáculos para o sofrimento dos inocentes ou das vítimas.
O segredo que socialmente organizamos - como povo civilizado - sobre o que se passa nas prisões é a nossa perversão.
A Amnestia Internacional está a fazer campanha em prol da libertação de Albert Woodfox cujo caso vai novamente a julgamento esta terça-feira, dia 7 de Janeiro . Apelamos a que utilizem o link abaixo para juntar o vosso nome às mais de 80,000 !!! pessoas que já assinaram esta petição.
Após a libertação de Robert King a 8 de Fevereiro de 2001 e de Herman Wallace a 1 de Outubro de 2013 Albert Woodfox é agora o único membro dos Angola-3 ainda detrás de grades.
Herman viria trágicamente a morrer três escassos dias após a sua libertação. No entanto,
saiu da prisão inocente e sabendo que o seu movimento para pôr fim aos períodos indefinidos
de prisão solitária dentro dos gulags norte americanos tinha se transformado num movimento
à escala nacional - o seu obituário foi publicado no New York Times - e com impacto além
fronteiras na imagem do sistema judicial norte-americano e pela luta anti-racista.
Para mais notícias sobre o caso dos Angola-3 podem ver o link abaixo.
Via ACED recebemos mais uma denúncia da humanidade que se agiganta nas prisões do país
"De uma cadeia central chegou-nos a informação de ter começado no dia 1 de Janeiro de 2014 uma outra forma de tratar com os problemas de saúde dos presos. Talvez apenas por falta de informação correcta, estas medidas estão a causar apreensão junto dos reclusos. Pelo que será eventualmente conveniente explicar claramente o que aconteceu e o que se espera que venha a acontecer nos próximos meses, a esse respeito.
Foram extintas muitas valências, como psicologia e psiquiatria, oftalmologia, ortopedista, dentista, e todas as consultas e tratamentos destas especialidades ficarão a expensas dos presos, no exterior.
Altas taxas de reclusos precisam de apoio psiquiátrico e psicológico, como se sabe. Tomam todo o tipo de drogas lícitas e ilícitas, recomendáveis ou não. Um médico de clínica geral duas vezes por semana – como parece ser o regime geral nas prisões – servirá para que efeito? Como seleccionará os seus doentes de entre os necessitados de apoio? Visto que, presume-se, muito doentes vão ficar sem apoio específico e também não será possível, por razões logísticas e financeiras, passar a transportá-los aos hospitais em função das suas necessidades.
Os cuidados se saúde são, naturalmente, críticos para as prisões. A integração dos presos no regime geral do sistema nacional de saúde parece poder melhorar as garantias de acesso à saúde dos presos. São conhecidos problemas emergentes do facto de os serviços de saúde estarem sob a alçada dos serviços de segurança das prisões. Todavia, neste período de transição para o novo regime de atendimento da saúde dos presos, a informação sobre os direitos e deveres dos reclusos para terem acesso ao sistema nacional de saúde é importante.
A ACED deixa esta sugestão a quem de direito."
A reaparição do Subcomandante Marcos nos 20 anos do levante zapatista
Por Eduardo Febbro
"Às vésperas de se completarem duas décadas do levante zapatista, o subcomandante Marcos reapareceu com um novo e extenso comunicado .
San Cristobal de las Casas – A prosa está intacta. Sutil e envolvente como o sol da tarde que envolve a praça central de San Cristobal de las Casas. Às vésperas de se completarem duas décadas do levante zapatista, o subcomandante Marcos reapareceu com um novo e extenso comunicado semeado com a ideia da “memória e da rebeldia”.
Na abertura, Marcos cita a novela do escritor norte-americano Herman Melville, Moby Dick. Encontro de uma prosa com outra: “Me parece que temos confundido muito esta questão da Vida e da Morte. Me parece que o que chamam de minha sombra aqui na terra é minha substância autêntica”, diz a prosa de Melville. A de Marcos completa o resto do comunicado. O subcomandante, que há uns cinco anos não aparecia em público, escreve: “É território zapatista, é Chiapas, é México, é América Latina, é a Terra. E é dezembro de 2013, faz frio como há 20 anos, e, como então, hoje há uma bandeira que nos cobre: a da rebeldia”.
Em outro momento de seu comunicado, Marcos acrescenta: “Porque a rebeldia, amigos e inimigos, não é patrimônio exclusivo dos neozapatistas. Ela é patrimônio da humanidade. E isso é algo que é preciso celebrar. Em todas as partes, todos os dias e em todas as horas. Porque a rebeldia é também uma celebração. Não são poucas nem débeis as pontes que, desde todos os rincões do planeta Terra, se estenderam até estes solos e céus. Às vezes com olhares, às vezes com palavras, sempre com nossa luta, temos nos cruzado para abraçar esse outro que resiste e luta”.
Ao longo do texto em que se alternam parágrafos poéticos, guerreiros ou irônicos, o Subcomandante zapatista presta homenagem a todos aqueles que, de uma maneira ou de outra, acompanharam o levante de 20 anos atrás: “Aos que, durante a noite, colocaram nas costas a mochila e a história, aos que tomaram com as mãos o relâmpago e o trovão, aos que calçaram as botas sem futuro, aos que cobriram o rosto e o nome, aos que, sem esperar nada em troca, morreram na longa noite para que outros, todos, todas, em uma manhã ainda por vir, possam ver o dia como é preciso fazê-lo, ou seja, de frente, de pé, com o olhar e o coração erguidos. Para eles, nem biografias nem museus. Para eles, nossa memória e rebeldia. Para eles nosso grito: Liberdade! Liberdade! Liberdade! Saúde e que nossos passos sejam tão grandes como nossos mortos”.
Marcos se pronunciou igualmente com um tom crítico contra todos os mandatários que ocuparam a presidência do México desde que surgiu o Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN): Carlos Salinas de Gortari, Ernesto Zedillo, Vicente Fox, Felipe Calderón e Enrique Peña Nieto. “Vicente Fox é a prova de que o posto de presidente de uma república e de uma filial de uma fábrica de refrigerantes é intercambiável...e que ambos os postos podem ser ocupados por inúteis; Felipe Calderón Hinojosa foi um “presidente valente” (para que outros morressem) e não um psicopata que roubou a arma (a presidência) para seus jogos de guerra (...) e que terminou sendo o que sempre foi: um empregado de segunda em uma multinacional. A propósito do atual presidente, Enrique Peña Nieto, cuja candidatura marcou o regresso do PRI ao poder após 14 anos na oposição, o Subcomandante questionou as reformas que vem adotando desde que foi eleito em fevereiro de 2012, particularmente aquelas no setor da energia:
“Enrique Peña Nieto será um presidente culto e inteligente (bom, é ignorante e tonto, mas hábil), é o novo perfil que se constrói nos grupinhos de analistas políticos, e não um analfabeto funcional”.
O tom deste comunicado é muito menos duro do que o que emitiu no final de 2012. Neste momento e já com o PRI no poder, o EZLN saiu a público, primeiro no dia 21 de dezembro com uma mobilização silenciosa da qual participaram cerca de 40 mil pessoas com o rosto coberto com o famoso gorro dos zapatistas. Nesta ocasião, o líder insurgente emitiu um comunicado onde perguntava: Escutaram? O som de seu mundo ruindo é o do nosso ressurgindo. A marcha do dia 21 foi a maior mobilização protagonizada pelos zapatistas desde que pegaram em armas no dia 1º de janeiro de 1994. Agora chega, pontual e esperado, esse aniversário.
Duas décadas de lutas, de mortos, de injustiças e repressão ao cabo das quais as palavras e o combate seguem vivos.
Segue a íntegra do novo comunicado do Subcomandante Marcos."
QUANDO OS MORTOS CALAM EM VOZ ALTA
(No que se reflete sobre @s ausentes, as biografias, narra o primeiro encontro de Durito com o Gato-Perro, e fala de outros assuntos que não vem ao caso, ou coisa, segundo irá ditando o pós-data impertinente)
Novembro - Dezembro de 2013.
Me parece que confundimos muito esta questão da Vida e da Morte. Me parece que o que chamam minha sombra aqui na terra é minha substância autêntica. Me parece que, ao ver as coisas espirituais, somos demasiado como ostras que observam o sol através da água e pensam que a densa água é a mais fina das atmosferas. Me parece que meu corpo não é mais que as fezes de meu melhor ser. De fato, que leve meu corpo quem queira, que o leve, digo: não sou eu.
Herman Melville “Moby Dick”.
Já faz um bom de tempo que sustento que a maioria das biografias não são mais que uma mentira documentada, e às vezes, não sempre, bem redigida. O biógrafo médio tem uma convicção prévia e a margem de tolerância é muito reduzida, quando não inexistente. Com essa convicção começa a movimentar o quebra-cabeças de uma vida que lhe é alheia (por isso seu interesse em fazer a biografia), e vai coletando as peças falsas que o permitam documentar sua própria convicção, não a vida resenhada.
O certo é que talvez pudéssemos conhecer com certeza data e lugar de nascimento e, em alguns casos, data e lugar de falecimento. Fora isso, a maioria das biografias deveriam estar no ramo de “histórias noveladas” ou “ficção-científica”.
O que sobra então de uma vida? Pouco ou muito, dizemos nós.
Pouco ou muito, dependendo da memória.
Ou, melhor, dos fragmentos que na memória coletiva essa vida imprimiu.
Se isso não vale para biógrafos e editores, pouco importa para o comum das pessoas.
Costuma acontecer que o que realmente importa não aparece nos meios de comunicação, nem se pode medir em pesquisas.
Logo, de uma pessoa ausente só temos peças arbitrárias do complexo quebra-cabeças feito de farrapos, rasgos e tendências que se conhecem como “vida”.
Assim que, com esse início confuso, permitam-me levantar algumas dessas peças fragmentadas para abraçar e abraçarmos pela passagem que hoje nos falta e necessitamos…
Um concerto no silêncio mexicano. Don Juan Chávez Alonso, purépecha, zapatista e mexicano, faz um gesto como se estivesse afastando de si um inseto incômodo. É sua resposta à desculpa que lhe dou por uma de minhas torpes grosserias. Estamos em território Cucapá, no meio de um terreno arenoso. Nessas coordenadas geográficas e quando no calendário se assinala a Sexta 2006 no Noroeste do México, na grande barraca de campanha que lhe serve de hospedagem, Don Juan toma o violão e pergunta se queremos escutar algo que compôs. Apenas afina e inicia um concerto que, sem letra alguma, narra o levantamento zapatista desde primeiro de janeiro de 1994 até a presença da Comandanta Ramona na formação do Congresso Nacional Indígena.
Um silêncio depois, como se fosse uma nota mais.
Um silêncio no qual calavam em voz alta nossos mortos.
Também no noroeste mexicano, a loucura sangrenta do Poder pinta de absurdos ainda impunes o calendário abaixo. 5 de junho de 2009. A cobiça e o despotismo governamentais lançaram fogo a uma creche para infantes. As vítimas mortais, 49 meninos e meninas, são as baixas colaterais quando se destroem arquivos comprometedores. Ao absurdo de que os pais sepultem os filhos, segue o de uma justiça débil e corrupta: os responsáveis não recebem uma ordem de apreensão mas cargos no gabinete do criminoso que, sob o azul da Ação Nacional, tratará de ocultar o banho de sangue no qual sumiu ao país inteiro.
Onde os biógrafos encerram suas anotações “porque uns poucos anos de vida não são rentáveis”, a história de baixo abre seu caderno de outros absurdos: com sua injusta ausência, essas crianças pariram outros homens e mulheres. Seus pais e mães levantam desde então a demanda da justiça maior: a de que a injustiça não se repita.
“O problema com a vida é que ao final te mata”, havia dito Durito, cujas fantasiosas histórias cavalheirescas tanto divertiam Chapis. Ainda que ela tenha perguntado, com essa impertinente mistura de ingenuidade e sinceridade que desconcertava quem não a conhecesse, “e por que um problema?”. Don Durito da Lacandona, escaravelho de origem e de ofício cavaleiro andante, teria evitado polemizar com ela, posto que, segundo um suposto regulamento da cavalaria andante, não se deve contradizer uma dama, (sobretudo se a dama em questão tem boas influências “muito acima”, agregava Durito que sabia que a Chapis era religiosa, monja, irmã, ou como queiram vocês chamar as mulheres que fazem da fé, sua vida e profissão).
A Chapis não nos conhecia. Quero dizer, não como quem nos vê de fora e sobre nós escreve, fala… ou mal fala (agora vocês veem como são passageiras as modas). A Chapis era com nós. E era muito tempo antes de que um escaravelho impertinente se empessoasse nas montanhas do sudeste mexicano para declarar-se cavaleiro andante.
E, talvez por ser em nós, era que a Chapis não parecia se inquietar tanto com isso de vida e morte. Como essa atitude tão nossa, dos neozapatistas, em que tudo se inverte e não é a morte que a preocupa e ocupa, mas a vida.
Mas a Chapis não era só em nós. É claro que fomos só uma parte de seu andar. E se agora lhes conto algo dela não é para dar apontamentos para sua biografia, mas para dizer o que aqui sentimos. Porque a história desta crente, sua história conosco, é das que fazem duvidar os fanáticos ateus.
“A religião é o ópio dos povos”? Não sei. O que sei é que a explicação mais brilhante que escutei sobre a destruição e despovoamento que a globalização neoliberal opera em um território foi dada, não por um teórico marxista-leninista-ateísta-e-alguns-istas-mais, mas… um padre cristão, católico, apostólico e romano, aderente à Sexta, e desterrado pelo alto clero (“por pensar muito”, me disse como pedindo desculpas) a um dos desertos geográficos do planalto mexicano .
Acho (talvez me engane, não seria a primeira vez e, seguramente, não será a última), que muitas pessoas, senão todas, que se aproximaram do que se conhece como neozapatismo, o fizeram buscando respostas a perguntas feitas nas histórias pessoais de cada um, segundo seu calendário e geografia. E que demoram apenas o indispensável para encontrar a resposta. Quando se deram conta de que a resposta era o monossílabo mais problemático da história, viraram para o outro lado e para lá se puseram a andar. Não importa quanto digam e se digam que continuam estando aqui: foram embora. Umas pessoas mais rápido que outras. E a maioria delas não nos olham, ou o fazem com a mesma distância e desdém intelectual que os que hastearam calendários antes que amanhecesse o janeiro de 1994.
Acho que já disse antes, em alguma outra missiva, não estou seguro. Mas como queira digo, ou repito aqui, que esse perigoso monossílabo é “tu”. Assim, com minúsculas, porque essa resposta era e é íntima a cada um. E cada um a toma com o terror respectivo.
Porque a luta é coletiva, mas a decisão de lutar é individual, pessoal, íntima, como o é a de seguir ou claudicar.
Digo que as poucas pessoas que ficaram (e não me refiro à geografia, mas ao coração) não encontraram essa resposta? Não. O que trato de dizer é que a Chapis não veio procurando essa resposta à sua pergunta pessoal. Ela já conhecia a resposta e havia feito desse “tu” seu caminho e meta: seu ser crente e consequente.
Muitas outras, muitos outros como ela, mas diferentes, já haviam se respondido em outros calendários e geografias. Ateus e crentes. Homens, mulheres e outr@s de todos os calendários. São esses, essas, ess@s, que sempre, vivos ou mortos, se colocam frente ao Poder, não como vítimas, mas para desafiá-lo com a múltipla bandeira da esquerda de baixo. São nossas companheiras, companheiros e companheir@s… ainda que na maioria dos casos nem el@s nem nós o saibamos… ainda.
Porque a rebeldia, amigos e inimigos, não é patrimônio exclusivo dos neozapatistas. É da humanidade. E isso é algo que temos que celebrar. Em todos os lugares, todos os dias e a todas as horas. Porque a rebeldia é também uma celebração.
Não são poucas nem débeis as pontes que, desde todos os cantos do planeta Terra, seestenderam até estes solos e céus. Às vezes com olhares, às vezes com palavras, sempre com nossa luta, atravessamos todos para abraçar a este outro que resiste e luta.
Talvez disso e não de outra coisa se trata o de “ser companheiros”: de atravessar pontes.
Como neste abraço feito letras para as irmãs da Chapis que, como nós, tem saudades e, como nós, precisam dela.
A impunidade, querido Matías, é algo que só a justiça pode outorgar; é a Justiça exercendo a injustiça”. Tomais Segovia, em “Cartas Cabales”.
Já disse antes que, segundo minha humilde opinião, cada um é o herói ou a heroína de sua própria história individual. E que na sedativa auto complacência de narrar “esta é minha história pessoal”, se editam fatos e não-fatos, se inventam as fantasias mais incríveis, e o narrar anedotas se parece demasiadamente ao fazer contas do avarento que rouba o alheio.
O ancestral afã de transcender à morte própria encontra nas biografias o substituto ao elixir da eterna juventude. Claro, também na descendência. Mas a biografia é, para dizer de alguma forma, “mais perfeita”. Não se trata de alguém que se parece, é o “eu” alongado no tempo graças à “magia” da biografia.
Acudiu o biógrafo de cima a documentos da época, talvez a testemunhos de familiares, amigos ou companheir@s da vida cuja morte se apropria. Os “documentos” têm a mesma certeza que os prognósticos meteorológicos, e os testemunhos obviam a delgada separação entre o “eu acho que…” e o “eu sei que…”. E então a “veracidade” da biografia se mede pela quantidade de notas de rodapé. Para as biografias vale o mesmo que para as faturas de gasto em “imagem” governamental: quanto mais volumosas, mais certas.Na atualidade, com a internet, os tuiters, os feisbuc e equivalentes, os mitos biográficos arredondam suas falácias e, voilá, se reconstrói a história de uma vida, ou fragmentos dela, que pouco ou nada têm a ver com a história real. Mas não importa, porque a biografia está publicada, impressa, circula, é lida, citada, recitada… como a mentira.
Cheque você nas modernas fontes documentais das biografias futuras, ou seja, Wikipedia e os blogs, Facebook e os “perfis” respectivos. Agora compare com a realidade:
Não lhe dão calafrios ao dar-se conta de que, talvez, no futuro…
Carlos Salinas de Gortari será “o visionário que entendeu que vender a uma Nação era, além de um negócio familiar (claro, entendendo como família a sanguínea e a política), um ato de patriotismo moderno”, e não o líder de uma gangue de traidores (não se façam, aí andam, na oposição “madura e responsável”, vári@s daqueles que apoiaram a reforma ao artigo 27 constitucional, o separador de águas da claudicação do Estado Nacional no México);
Ernesto Zedillo Ponce de Leão não será o “homem de Estado” que levou toda uma Nação de uma crise a outra pior (além de ser um dos autores intelectuais, junto com Emilio Chuayffet e Mario Renán Castillo, do massacre de Acteal), mas que levou “as rendas do país” com um singular sentido do humor… para terminar sendo o que sempre foi: um empregado de segunda em uma multinacional;
Vicente Fox será a amostra de que o cargo de presidente de uma república e de uma filial de sombra é intercambiável… e que ambos os cargos podem ser ocupados por inúteis;
Felipe Calderón Hinojosa será um “presidente valente” (para que outros morressem) e não um psicopata que roubou a arma (a presidência) para seus jogos de guerra… e que terminou sendo o que sempre foi: um empregado de segunda em uma multinacional;
Enrique Peña Nieto será um presidente culto e inteligente (“bom, é ignorante e bobo, mas hábil”, é o novo perfil que lhe constroem nos jograis de analistas políticos), e não um analfabeto funcional (nem modo, como diz o provérbio popular: “o que a natureza não dá, a Monex não compra”) …?
Ah, as biografias. Não poucas vezes são autobiografias, ainda que sejam os descendentes (ou os compinchas) quem as promovam e assim adornam sua árvore genealógica.
Os criminosos da classe política mexicana que mal governaram estas terras continuarão sendo, para aqueles que padeceram seus desmandos, criminosos impunes. Não importa quantas linhas se paguem nos meios de comunicação nem quanto se gaste em espetáculos nas ruas, na imprensa escrita, em rádio e televisão. De los Díaz (Porfirio e Gustavo) aos Calderón e Peña, dos Castellanos e Sabines aos Albores e Velasco, só media a troca (via redes sociais, porque nos meios de comunicação pagos continuam sendo “pessoas responsáveis e maduras”) da ridícula frivolidade dos “Juniors”.
Mas o mundo é redondo e no contínuo sobe e desce da política de cima, se pode passar, em pouco tempo, da capa da revista “Hola”, ao “PROCURA-SE: CRIMINOSO PERIGOSO”; da patuscada de dezembro do TLC à crua do levantamento zapatista; do “homem do ano” à “greve de fome” com água engarrafada de marca “chic” (não tem jeito, até para os protestos há classes sociais); do aplauso pelas piadas ruins, ao filicídio putativo por concretizar-se; do nepotismo e da corrupção adornados com ocorrências à investigação por ligações com o narcotráfico; dos trajes militares tamanho extra grande, ao exílio temeroso e manchado de sangue; da patuscada de dezembro entreguista a…
Com tudo isso e o que continua digo que não temos que escrever/ler biografias? Não, mas o que faz que ande a velha roda da história são os coletivos, não os indivíduos… ou indivíduas. A historiografia se nutre de individualidades; a história aprende de povos.
/Digo que não temos que escrever/estudar história? Não, mas o que digo é que é melhor fazer da única forma que se faz, ou seja, com outros e organizados.
Porque a rebeldia, amigos e inimigos, quando é individual é bela. Mas quando é coletiva e organizada é terrível e maravilhosa. A primeira é matéria de biografias, a segunda é a que faz história.
E não com palavras abraçamos nossos companheiros e companheiras zapatistas, ateus e crentes:os que de noite puseram a mochila e a história nas costas,
aos que tomaram com as mãos o relâmpago e o trovão,
aos que se calçaram as botas sem futuro,
aos que se cobriram o rosto e o nome,
aos que, sem esperar nada em troca, na longa noite morreram
para que outros, todos, todas, em uma manhã por vir ainda,
possam ver o dia como tem que ser,
ou seja, de frente, de pé e com o olhar e o coração erguidos.
Para eles nem biografias nem museus.
Para eles nossa memória e rebeldia.
Para eles nosso grito:
liberdade! Liberdade! LIBERDADE!
Vale. Saúde e que nossos passos sejam tão grandes como nossos mortos.
O SupMarcos.
P.D. DE INSTRUÇÕES ÓBVIAS - Agora sim, seja tão amável de ler, em calendário inverso, desde Rebobinar 1 até o 3, e talvez assim encontre o gato-perro e algumas dúvidas se esclareçam. E sim, tenha a segurança de que surgirão mais perguntas.
P.D. QUE ATENDE, SOLÍCITA, AOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO PAGOS - Ah! Comovedor o esforço dos contras nos meios pagos para tratar de dar argumentos aos poucos leitores-ouvintes-videntes contras que lhes sobram. Mas, generoso pela época de natal, aqui lhes mando algumas dicas para que usem de material jornalístico:
. - Se as condições das comunidades indígenas zapatistas estão iguais que há 20 anos e nada se avançou em seu nível de vida, por que o EZLN – como fez em 1994 com a imprensa paga - se “abre” com a escolinha para que a gente de baixo veja e conheça diretamente, SEM INTERMEDIÁRIOS, o que existe aqui.
E já posto em “modo interrogativo”, por que no mesmo período se reduziu, também exponencialmente, o número de leitores-ouvintes-telespectadores dos meios de comunicação pagos? Pst, pst, podem responder que não têm menos leitores-ouvintes-telespectadores – isso reduziria a publicidade e o chuchu -, que o que acontece é que agora são mais “seletivos”.
- Vocês perguntam “Que fez o EZLN pelas comunidades indígenas? E nós estamos respondendo com o testemunho direto de dezenas de milhares de nossos companheiros e companheiras.
Agora vocês, os donos e acionistas, diretores e chefes, respondam:
Que fizeram, nestes 20 anos, pelos trabalhadores dos meios de comunicação, um dos setores mais golpeados pelo crime existente e alentado pelo regime a quem tanto adoram? Que fizeram pelos jornalistas, as jornalistas ameaçadas, sequestradas e assassinadas? E por seus familiares? Que fizeram para melhorar as condições de vida de seus trabalhadores? Aumentaram o salário para que tenham uma vida digna e não tenham que vender sua palavra ou seu silêncio frente à realidade? Criaram as condições para que se retirem, depois de anos de trabalhar para vocês, dignamente? Deram-lhes segurança no emprego? Quero dizer, o emprego de um repórter já não depende do humor do chefe de redação ou dos “favores”, sexuais ou de outro tipo, que demandam a todos os gêneros?
Que fizeram para que o ser trabalhador dos meios de comunicação seja um orgulho que não custe a perda da liberdade ou a vida ao ser honesto?
Podem dizer que seu trabalho é mais respeitado por governantes e governados que há 20 anos?
Que fizeram contra a censura imposta ou tolerada? Podem dizer que seus leitores-ouvintes-telespectadores estão mais bem informados que há 20 anos? Podem dizer que têm mais credibilidade que há 20 anos? Podem dizer que sobrevivem graças a seus leitores-ouvintes-telespectadores e não pela publicidade, majoritariamente governamental?
Aí lhes respondem a seus trabalhadores e leitores-ouvintes-telespectadores, assim como nós lhes respondemos aos nossos companheiros e companheiras.
Oh, vamos, não fiquem tristes. Não somos os únicos que escapamos de seu papel de juiz e carrasco, suplicando sua absolvição e recebendo sempre sua pena. Está também, por exemplo, a realidade.
Vale de nove, ou, melhor, de sessenta e nove.
O Sup dizendo-se que é melhor um polegar para baixo que um dedo médio para cima.
É território zapatista, é Chiapas, é México, é América Latina, é a Terra. E é dezembro de 2013, faz frio como há 20 anos, e, como então, hoje uma bandeira nos cobre: a da rebeldia.

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| Texto de John Pilger |
"No fim dos anos 1960 o editor-chefe do London Daily Mirror, Hugh Cudlipp, atribuiu-me mais uma missão. Devia retornar à minha pátria, a Austrália, e "descobrir o que está por trás da sua face radiante". O Mirror fizera uma campanha incansável contra o apartheid na África do Sul, onde havia relatado o que estava por trás da sua "face radiante". Como australiano, eu fora bem recebido naquela fortaleza da supremacia branca. "Admiramos vocês aussies ", diziam as pessoas. "Vocês sabem como tratar os seus negros".
Eu ficava ofendido, é claro, mas também sabia que apenas o Oceano Índico separava as atitudes raciais das duas nações coloniais. Do que eu não estava consciente era de como a semelhança provocou tamanho sofrimento entre o povo original do meu próprio país. Quando crescia, meus livros escolares haviam deixado claro, para citar um historiador: "Nós somos civilizados e eles não são". Recordo como a uns poucos talentosos jogadores da Aboriginal Rugby League foi permitido atingirem sua glória desde que eles nunca mencionassem o seu povo. Eddie Gilbert, o grande jogador aborígene de críquete, o homem que bateu Don Bratman com um resultado zero ( duck ) , foi impedido de jogar outra vez. Isso não era atípico.
Em 1969 voei para Alice Springs no coração vermelho da Austrália e encontrei-me com Charlie Perkins. Num tempo em que o povo aborígene nem sequer era contado no recenseamento – ao contrário dos carneiros – Charlie era apenas o segundo aborígene a obter um grau universitário. Ele tem feito bom uso desta distinção liderando "campanhas itinerantes" ("freedom rides") em cidades racialmente segregadas no sertão australiano da Nova Gales do Sul. Ele apanhou a ideia das campanhas itinerantes nas que se verificaram no Sul Profundo (Deep South) dos Estados Unidos.
Alugámos um velho Ford, apanhámos a mãe de Charlie, Hetti, uma anciã do povo aranda, e fomos para o que Charlie descreveu como "inferno". Era Jay Creeki, uma "reserva nativa", onde centenas de aborígenes eram encurralados em condições que eu só tinha visto na África e na Índia. De uma torneira do lado de fora pingava um líquido castanho; ali não havia instalações sanitárias; a comida, ou "rações", era fécula e açúcar. As crianças tinham pernas finas como palitos e barrigas inchadas pela desnutrição.
O que me impressionou foi o número de mães e avós enlutadas – desoladas pelo roubo de filhos pela polícia e autoridades do "bem-estar" que, durante anos, haviam levado aquelas crianças com pelo mais clara. A política era a "assimilação". Hoje, isto mudou apenas no nome e na racionalização.
Os rapazes acabariam a trabalhar em fazendas dirigidas por brancos, as meninas como serviçais em lares da classe média. Isto era trabalho escravo não declarado. Eles eram conhecidos como a Geração Roubada. Hetti Perkins contou-me que quando Charlie era criança ela teve de mantê-lo atado às suas costas e escondia-o sempre que ouvia o tropel dos cavalos da polícia. "Eles não o levaram", disse ela, com orgulho.
Em 2008, o primeiro-ministro Kevin Rudd pediu desculpas por este crime contra a humanidade. Os aborígenes mais velhos ficaram gratos; acreditaram que o primeiro povo da Austrália – a mais duradoura presença humana sobre a terra – podia finalmente receber a justiça e o reconhecimento que lhe fora negado durante 220 anos.
O que poucos deles ouviram foi o PS adicional das desculpas de Rudd. "Quero ser categórico acerca disto", disse ele. "Não haverá indemnização". Que a 100 mil pessoas profundamente ofendidas e marcadas pelo ódio racista – resultado de uma forma de movimento eugenista com ligações ao fascismo – não fosse dada qualquer oportunidade para restabelecerem suas vidas era chocante, embora não surpreendente. A maior parte dos governos em Canberra, conservadores ou trabalhistas, tem insinuado que os primeiros australiano são culpáveis pelo seu sofrimento e pobreza.
Quando o governo trabalhista na década de 1980 prometeu "plena reparação" e direitos à terra, o poderoso lobby mineiro avançou com o ataque, gastando milhões a fazer campanha de que "os negros tomariam nossas praias e cerca de arame farpado". O governo capitulou, muito embora a mentira fosse grotesca; o povo aborígene mal chega a três por cento da população australiana.
Hoje, crianças aborígenes estão outra vez a ser roubadas das suas famílias. As palavras burocráticas são "removidas" para "protecção da criança". Em Julho de 2012 havia 13.299 crianças aborígenes em instituições ou entregues a família brancas. Hoje, o roubo destas crianças é mais intenso do que em qualquer momento durante o último século. Entrevistei numerosos especialistas em cuidados infantis que encaram isto como uma segunda geração roubada. "Muitos dos garotos nunca vêem outra vez as suas mães e comunidades", disse-me Olga Havnen, autora de um relatório para o governo do Território do Norte. "No Território do Norte, foram gastos $80 milhões na vigilância e remoção de crianças e menos de $500 mil no apoio a estas famílias empobrecidas. Muitas vezes não é dado qualquer aviso às famílias e elas não têm ideia para onde os seus filhos foram levados. A razão apresentada é negligência – o que quer dizer pobreza. Isto é destruir a cultura aborígene e é racista. Se o apartheid da África do Sul tivesse feito isto, teria havido um alvoroço".
Na cidade de Wilcannia, Nova Gales do Sul, a esperança de vida dos aborígenes é de 37 anos – mais baixa do que na República Centro-Africana, talvez o país mais pobre da Terra, actualmente devastado pela guerra civil. Outra distinção de Wilcannia é que o governo cubano realiza ali um programa de alfabetização, ensinando jovens aborígenes a ler e escrever. É nisto que os cubanos são famosos – nos países mais pobres do mundo. A Austrália é um dos mais ricos do mundo.
Filmei condições semelhantes há 28 anos atrás, quando fiz meu primeiro filme acerca dos indígenas da Austrália, The Secret Country . Vince Forrester, um ancião aborígene que então entrevistei, aparece no meu novo filme, Utopia. . Ele levou-me a uma casa em Mutitjulu onde viviam 32 pessoas, na maior parte crianças, muitos deles a sofrerem otite média, uma doença infecciosa totalmente evitável que prejudica a audição e a fala. "Setenta por cento das crianças nesta casa está parcialmente surda", disse ele. Voltando-se directamente para a minha câmara, disse: "Australianos, isto é o que nós chamamos um insulto aos direitos humanos".
A maioria dos australianos raramente é confrontada com o segredo mais sujo da sua nação. Em 2009, o respeitado Relator Especial das Nações Unidas, Professor James Anaya, testemunhou condições semelhantes e descreveu as políticas de "intervenção" do governo como racistas. O então ministro para a Saúde Indígena, Tony Abbott, para "fazer algo útil" e parar de ouvir "a brigada da vítima". Abbott é agora o primeiro-ministro da Austrália.
Na Austrália Ocidental são escavados minérios da terra aborígene e despachados para a China com um lucro de mil milhões de dólares por semana. Neste, o estado mais rico e mais próspero, as prisões enchem-se com aborígenes esmagados, incluindo jovens cujas mães postam-se às portas da prisão, suplicando pela sua libertação. Aqui o encarceramento de australianos negros é oito vezes superior ao dos negros sul-africanos durante a última década do apartheid.
Quando Nelson Mandela foi enterrado esta semana, a sua luta contra o apartheid foi devidamente celebrada na Austrália, embora a ironia estivesse ausente. O apartheid foi derrotado em grande medida por uma campanha global da qual o regime sul-africano nunca se recuperou. Um opróbrio semelhante raramente deixou marca na Austrália, principalmente porque a população aborígene é tão pequena e porque os governos australianos têm conseguido dividir e cooptar uma liderança dividida com gestos e promessas vagas. Isso pode estar a mudar. Uma resistência está a crescer, apesar de tudo, nas terras centrais aborígenes, especialmente entre os jovens. Ao contrário dos EUA, Canadá e Nova Zelândia, que fizeram tratados com o seu povo original, a Austrália tem apresentado gestos muitas vezes incluídos nas leis. Contudo, no século XXI o mundo exterior começa a prestar atenção. O espectro da África do Sul de Mandela é uma advertência. "
19/Dezembro/2013 Texto de John Pilger
Transcrevemos a partir do "Diário da Liberdade"
Carta Capital - [Felipe Milanez] Morto em 22 de dezembro de 1988, Chico Mendes deixou um legado de intensa disputa política e é fonte de inspiração para movimentos sociais pelo mundo.
Na noite de 22 de dezembro de 1988, uma semana após completar 44 anos de idade, Chico Mendes foi alvejado por um tiro de escopeta no peito, na porta de sua casa, em Xapuri, Acre, enquanto saía para tomar banho (o banheiro era externo). No interior da casa, os dois guarda costas responsáveis por cuidar da sua segurança, da polícia militar, jogavam dominó e fugiram correndo ao escutar o disparo. A tocaia foi armada pelo fazendeiro Darly Alves e executada por seu filho, Darcy, junto de um outro pistoleiro. A versão que se tornou oficial da morte seria a vingança de Darly pela disputa do Seringal Cachoeira, que Darly queria transformar em fazenda, expulsar os seringueiros e desmatar a floresta; e também que Chico Mendes havia descoberto, no Paraná, uma condenação anterior do fazendeiro por assassinato.
Atribuir o crime apenas à fúria de Darly, que com seu bando de pistoleiros aterrorizava Xapuri, sempre foi visto como uma forma de esconder outros interesses que poderiam estar por trás do assassinato. O que estava por trás do crime era a destruição da Amazônia em benefício de poucos. Chico Mendes representava a resistência dos povos da floresta, as lutas sociais e a defesa ecológica das populações que ele, como poucos, soube organizar e liderar.
O assassinato de Chico Mendes a mando do fazendeiro Darly Alves, representante local da então União Democrática Ruralista (UDR), entidade de classe dos grandes latifundiários então comandada por Ronaldo Caiado (hoje representada pela Confederação Nacional da Agricultura, CNA, chefiada por Kátia Abreu), provocou uma imensa repercussão internacional. Surpreendeu tanto a elite agrária local, que pensava que o crime iria desaparecer na impunidade como tantos outros que cometiam, quanto a imprensa nacional, que ignorava os seringueiros e em grande parte os conflitos no campo (não muito diferente do que ainda ocorre). Ambos, pai e filho, foram condenados a 19 anos de prisão, cujas penas, hoje, já foram cumpridas. Outros assassinatos que teriam sido cometidos pelo bando de pistoleiros chefiado por Darly ficaram impunes – como o assassinado de Ivair Igino, companheiro de Chico, poucos meses antes, em junho de 1988, por outro filho de Darly, Olocy. Em julgamento recente, a condenação de Olocy foi tão baixa que o crime prescreveu – sequer consideraram a emboscada armada como um crime premeditado.
Chico Mendes foi um dos mais influentes ambientalistas de sua época e mudou o paradigma do ambientalismo internacional, ao colocar as populações diretamente afetadas por projetos de desenvolvimento como centro do debate. Foi um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores e o ideólogo das "reservas extrativistas", na qual a população tradicional que habitava a floresta teria o direito de manter seu modo de vida de coleta sustentável dos produtos florestais. "A reserva extrativista é a reforma agrária do seringueiro", ele dizia. Chico também falava que ele defendia a vida dos seringueiros, então, as seringueiras e a floresta amazônica, e assim se deu conta de que estava defendendo o Planeta inteiro. Um pensamento cada vez mais atual em relação a crise ecológica que toca a todos.
Suas ideias giraram o mundo e inspiraram diversas lutas sociais. O ativismo liderado por Chico Mendes havia influir na política de financiamento do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e do Banco Mundial para a Ditadura, no Brasil, para construir estradas na Amazônia, mostrando que o benefício dos empréstimos atingia apenas a uma pequena elite, provocando violência e destruição ambiental. Hoje, o espaço desses organismos financeiros foi ocupado pelo BNDES.
O líder seringueiro teve uma brilhante trajetória política. No seu próprio dizer, foi como "ganhar na loteria". Não havia escolas nos seringais e 98% dos seringueiros eram analfabetizados nos anos 1970. Mas em 1962 Chico Mendes encontrou o militante comunista Euclides Távora, refugiado da Coluna Prestes na Amazônia, na fronteira da Bolívia com o Acre. Távora iniciou um processo de alfabetização baseado não em cartilhas, mas em jornais da época que chegavam com meses de atraso. Todos finais de semana, o garoto caminhava 3 horas até a colocação de Távora. Chico Mendes não só aprendeu a ler e a escrever, como passou a compreender o contexto político de seu entorno. Quando veio o golpe de 1964, podia conectar nas rádios internacionais em versão em portugues da Voice of America, BBC e Central de Moscou, e junto de Távora, interpretar como as notícias eram informadas de forma bastante diferentes. A relação com Távora terminou em 1965, e com uma mensagem: os anos vindouros seriam marcados por autoritarismo e violência, e Chico deveria filiar-se ao primeiro sindicato que surgisse.
Após algumas tentativas de mobilizar, de forma isolada, os seringueiros, no início dos anos 1970 surgiram as comunidades eclesiais de base, localmente comandadas por dom Moacyr Grechi, bispo progressista da teologia da libertação. E em 1975, através da CONTAG, foi criado o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasiléia. Como era um dos poucos letrados, Chico assumiu a secretaria, e em 1977 fundou o sindicato em Xapuri. A trajetória do sindicalista culminou com a criação do Conselho Nacional dos Seringueiros (CNS), em 1985, em Brasília, fato que projetou a luta do seringueiros ao debate nacional.
Chico Mendes hoje
A memória de Chico Mendes é uma turbulenta disputa política. No Acre, entre as diversas homenagens, há até palestras pagas pelo governo e pela Petrobrás (que vai explorar gás na floresta) para apresentar o líder sindical quase como um empresário "verde". Em um recente especial, a GloboNews recolheu belas imagens de arquivo para concluir que Chico Mendes pregava a "sustentabilidade".
O uso da imagem de Chico Mendes permite ao governo do Acre, por exemplo, jogar luz na floresta com energia elétrica produzida com a queima de combustíveis fósseis, resultando em poluição luminosa que afeta espécies que vivem na área objeto da intervenção (essa foi uma das tantas "homenagem" ao líder seringueiro), enquanto a população da floresta enfrenta desafios para sobreviver e sair da miséria sem ter que destruir o ambiente onde vive. Dilma Rousseff, cuja política em relação a Amazônia contrasta de forma imensa aos ideais de Chico Mendes, nesse ano sancionou lei que destaca Chico Mendes como patrono do meio ambiente e herói nacional. É possível imaginar que Chico teria estendido suas críticas do Banco Mundial, nos anos 1980, ao à política do BNDES hoje: o benefício dos investimentos provoca destruição, conflitos, violência, e no fundo acaba por beneficiar poucos bolsos.
No Acre, o legado de Chico Mendes ajudou a eleger não apenas quatro mandatos seguido ao governo, como senadores (Marina Silva, por exemplo), deputados, vereadores, prefeitos. O atual governo, que tem incentivado não só a pecuária como mesmo a exploração de gás na floresta, tem recebido criticas contundentes de alguns antigos companheiros de Chico Mendes. Não há dúvidas, no entanto, de que os sucessivos governos do PT no Acre foram os que melhor souberam dirimir os intensos conflitos por terra que ocorrem no Brasil, e, até o momento, também controlar o desmatamento. Se há abusos do uso da imagem de Chico Mendes e "traições" como acusam os companheiros do líder seringueiro, no Acre também há esperanças de surgir um modelo inovador, como foram as reservas extrativistas, sem que isso signifique transformar a floresta em commodity. O medo é que seja necessário outra "loteria", como foi a formação improvavél que resultou na brilhante trajetória de Chico Mendes.
A memória do líder sindical que homenageou revolucionários nos nomes de seus filhos, como Sandino (em referência ao líder nicaraguense) e Elenira (em referência a Helenira Rezende, da Guerrilha do Araguaia); que seguiu Lenin ao se filiar no primeiro sindicato aberto na região; e que defendia a "reforma agrária" através das reservas extrativistas, vai cada vez ficando menos "vermelha", e mais verde desbotado de um ambientalismo capitalista que tenta mercantilizar a floresta e a natureza.
Nesses 25 anos que separam o assassinato dos dias de hoje, procurei dois companheiros próximos a Chico Mendes na época, Osmarino Amâncio e Gomercindo Rodrigues, para ouvir deles o debate em torno do legado, e também compreender melhor como pensava Chico Mendes. Dois companheiro sque não seguiram a política oficial, mas permanecem, cada uma de sua maneira, dedicados em perpetuar as memórias do amigo. Os depoimentos seguem em posts publicados hoje no blog.
"Guma", como é conhecido Gomercindo, hoje é advogado em Rio Branco, e ele vê vitórias importantes do movimento após a morte de Chico, com a diminuição dos conflitos, a criação de reservas extrativistas, e a inserção de muitos elementos da luta seringueira na principal pauta de políticas públicas. Para ele, no entanto: " Há hoje uma negação dos princípios do Chico Mendes na questão da memória. O Chico era um cara com formação de esquerda, mas era um conciliador. Era muito firme e sempre foi muito seguro de ser uma pessoa de esquerda. Houve um abrandamento do discurso. Quando o PT chegou ao poder no Acre, algumas coisas foram encaminhadas, outras transformadas numa proposta mais palatável, e sendo colocadas como se fossem os ideais de Chico."
Osmarino, que ainda vive na floresta, vai mais além nas suas críticas ao uso da imagem de Chico Mendes:
Chico mendes abriu a discussão sobre uma parceria com o movimento ambiental, mas a sua preocupação era social e fundiária. A terra era vista por ele com a função social. Ele tinha visão da conjuntura. Criticava o sistema que só implementa a barbárie, a concentração nas mãos de poucas pessoas. Ele colocava isso nas discussões. Nossa vida é de acordo com a natureza, e só temos condições de sobreviver com a floresta em pé. A gente vive da castanha, da pesca, da caça. A gente achava que os ambientalistas podiam ser nossos parceiros. E o Chico Mendes sabia compreender o momento para fazer as parcerias e as alianças.
Só que hoje, com o FSC, WWF, essas ONGs, a Marina implantando o capitalismo verde, o Chico Mendes está sacudindo. Chico Mendes era um libertário. Um socialista convicto. Queria a reforma agrária, e era acusado de terrorista. Parece que estão assassinando o Chico outra vez pintando ele de um ambientalista desses, porque querem matar a figura do libertário, lutador pela vida, por igualdade social, contra preconceito e discriminação.
Chico Mendes serviu de inspiração para diversos movimentos e organizações em todo o mundo. No lado oposto da Amazônia, no Pará, inspirou José Cláudio Ribeiro e Maria do Espírito Santo, assassinados em razões muito semelhantes no dia 24 de maio de 2011. Maria havia mudado o nome da escola do assentamento onde viviam, em Nova Ipixuna, de "Presidente Costa e Silva" para "Escola Chico Mendes". Chico Mendes era, ao lado de Paulo Freire, uma das principais bases teóricas e fontes de inspiração da luta pelo extrativismo e a vida junto da floresta, do engajamento e união dos trabalhadores em defesa do ambiente onde vivem.
A influência internacional de Chico Mendes não ficou restrita ao círculo de ambientalistas em Washington, nos Estados Unidos, e em Ipanema, no Rio, com quem ele havia se aliado para defender os seringueiros. Chico Mendes dizia que primeiro ele pensava em defender os seringueiros, e por tanto, a seringueira e a floresta, e assim se deu conta de que estava defendendo o Planeta. Os ideias de Chico Mendes se espalharam pelo interior do Brasil pela base, com um conteúdo bem mais crítico do que aquele que se tenta espalhar pelas cidades e classes mais altas. Sua luta chegou até na Índia, por exemplo, onde o historiador indiano Ramachandra Guha compara o movimento Chipko, na Índia, com os seringueiros no Brasil, e mostra a grande influência que os seringueiros tiveram para inspiração de um movimento do outro lado do globo. "A partir daí o ambientalismo deixou de ser um conservacionismo elitista para se tornar um ecologismo popular, ou 'ecologismo dos pobres'", me disse o economista ecológico Joan Martinez Alier, professor da Universidade Autônoma de Barcelona. Outra comparação feita no plano internacional é com o líder ogoni Ken Saro Wiwa, assassinado pelo Estado da Nigéria por lutar contra a Shell.
A melhor forma de conhecer Chico Mendes é ouvindo e lendo Chico Mendes por ele mesmo. Além de seu livro "Chico Mendes por ele mesmo", que pode ser encontrado em sebos, há dois grandes documentários on line que contem entrevistas realizadas com ele.
O filme Voice of the Amazon, de Miranda Smith, passou no Brasil pela TV Manchete, e há uma boa versão no
original em inglês.
De Adrian Cowell, "Chico Mendes: Eu Quero Viver", que integra a espetacular série "A Década da Destruição", pode ser visto
aqui.
A Universidade de São Paulo disponibilizou
uma magistral aula proferida por Chico Mendes no departamento de Geografia, alguns meses antes de sua morte.
Entre tantos bons livros, Gomercindo Rodrigues lançou "Caminhando na Floresta", pela editora da UFAC, e Edilson Martins "Chico Mendes: um povo da Floresta", pela Garamond. A última entrevista concedida por Chico Mendes, justamente a Martins, acabou sendo publicada apenas após sua morte, e pode ser conferida
aqui. A história dessa entrevista, que poderia ter salvo a vida de Chico Mendes, mas não foi publicada por incompetência de celebrados jornalistas (que representam a surdez da grande mídia até hoje com relação aos problemas sociais do Brasil), e foi contada por Martins ao jornalista acreano Altino Machado, recentemente,
nesse depoimento.
Em abril, em Washington, DC, nos Estados Unidos, a antropóloga Linda Rabben, que conheceu Chico Mendes em vida, junto de outros ambientalistas e diferentes organizações da sociedade civil, está organizando uma grande conferência em homenagem a Chico Mendes, que deve contar com a participação de diversas lideranças de base e também um festival de filmes.
Não há dúvidas de que a morte violenta não matou as ideias de Chico Mendes. Muitos elementos relacionados ao assassinato ficaram sem explicações, e Darly e Darcy Alves, fazendeiros pistoleiros, pagaram pelo crime que, como se suspeita, tenha livrado outros que também mereciam estar ainda hoje atrás das grades.
O mais triste é pensar que apesar de avanços, a UDR que teria orquestrado a morte de Chico Mendes, e tantos outros, impondo um clima de terror, hoje está transformada em CNA, e a violência no campo segue como um dos maiores desafios para a democracia no Brasil. "O que acontecia no Acre naquele tempo com os seringueiros, hoje acontece no MS com os Guarani, de forma muito similar", compara Gomercindo.
Felipe Milanez é pesquisador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra.
"Acabo de receber de meu amigo e colega de Departamento Dirk Greimann, uma matéria que saiu essa semana na Der Spiegel alemã sobre o genocídio dos indígenas da Amazônia e sobre o cerco à Floresta... É simplesmente chocante... Aqui, um mapa o...nde a área vermelha representa área ja desmatada, a verde claro área em processo de desmatamento por causa do avanço dos assentamentos, mineração e fazendas e a área verde escuro o que de fato ainda resta da Floresta em estado virgem... Alarmante... Cadê a porra da Dilma... Porque esse governo não se mexe pra fazer algo realmente útil pela humanidade... Aqui o link da matéria completa..."
Comunicado da ACED
"Escravatura e nepotismo corporativo em Vale de Judeus "
Trabalhadores da estufaria e da oficina mecânica são usados pelos guardas prisionais como trabalhores sem remuneração (escravos, não é assim que se diz?) para arranjar e embelezar carros dos próprios guardas ou de familiares. Além de arranjar e estufar carros, a prática é de tal modo banal que até para lavar carros as instalações da cadeia e o trabalho dos presos serão usadas. A estufaria também será usada do mesmo modo por quem disponha de “conhecimentos”. E o trabalho também não é remunerado. Vêm sobretudo cadeira e maples para modernizar.
Os serviços são usados pelos guardas, familiares, amigos e também magistrados judiciais e do ministério público cujas funções são de tutela daquele estabelecimento prisional, através do Tribunal de Execução de Penas.
Uma denúncia destas não pode deixar de ser investigada. Até porque o próprio ministério público, segundo se reclama, está bem dentro do assunto. A ACED não tem ilusões, claro, sobre as conclusões dos diversos inquéritos que esta denúncia poderá gerar. Mas não pode também deixar de levantar o problema: como é que alguma denúncia pode algum dia ser validada – logo haja razão para tal, evidentemente – se o grau de promiscuidade corporativa e exploração dos presos pode admitir práticas deste jaez?
A ACED gostaria de poder afirmar que uma denúncia destas é praticamente impossível de corresponder a alguma verdade substancial. Porém, em caso de importância bem menor (tratava-se se um canil clandestino) entidades inspectivas contestaram – por escrito – a denúncia dizendo que ninguém ganharia com a regularização daquele caso. Que terá sido regularizado, tanto quanto nos informaram.
A ACED não sabe se este caso vai ser regularizado. Mas o problema que a simples existência da possibilidade de uma coisa destas poder ocorrer levanta é bem mais fundo. Remete para a neutralidade do tribunal de execução de penas, em particular no julgamento de denúncias que são feitas por presos ou guardas e que possam atingir alguém envolvido num circuito deste tipo. Ou para a gestão das carreiras penitenciárias por guardas avulso.
Noutra prisão, a respeito de uma denúncia de um espancamento, o guarda abusador acordou com o recluso em quem bateu trocar o seu silêncio por uma saída precária. Esta situação não é singular. O que foi singular, nessa vez, foi a evidência que ocasionalmente se obteve de que uma investigação (pouco cuidada) teve dificuldade em chegar à verdade. Claro: ambos os protagonistas estavam acordados para o efeito. E os direitos não eram para ali chamados (talvez por nunca ou raramente o são ou há esperança de que o sejam).
A questão é saber como um guarda pode oferecer uma precária ou uma liberdade condicional, como consta frequentemente ser o método principal de gestão das cadeias portuguesas? Possibilidade de oferta de que se fala correntemente nas prisões, como modo de condicionar os comportamentos dos presos. Uma resposta potencial está na denúncia que aqui transmitimos. Será a conhecida omerta penitenciária uma característica da cultura dos presos ou da cultura das corporações que regulam a vida dos presos?
Às autoridades competentes pedimos, por vezes, sem sucesso, que se organizem para procurarem entender as perversidades do sistema, tomado como um sistema, como se as pudessem ultrapassar. Sem ilusões sobre o detalhe com que assuntos tão delicados vão ser tratados, estamos obrigados pelas circunstâncias a repetir o apelo. As prisões contaminam (e são contaminadas) pelo que se passa à sua volta. Mas há que começar por algum lado.
MPPM recorda 5º aniversário da agressão de Israel contra Gaza
NO QUINTO ANIVERSÁRIO DA OPERAÇÃO “CHUMBO FUNDIDO”
Cidade de Gaza, 27 de Dezembro de 2008. É um sábado e pouco falta para o meio-dia. As crianças regressam da escola e as ruas estão repletas de pessoas. Poucos minutos mais tarde, mais de 200 estarão mortas e cerca de sete centenas estarão feridas. Israel acaba de desencadear o seu covarde ataque que baptiza de “Operação Chumbo Fundido”. Dezenas de caças F-16, helicópteros Apache e veículos aéreos não tripulados bombardeiam, em simultâneo, mais de uma centena de locais em toda a Faixa de Gaza. Nos dias seguintes, continuam os bombardeamentos, culminando numa invasão terrestre em 3 de Janeiro de 2009. Quando termina a operação, em 18 de Janeiro, debaixo de forte pressão internacional e dois dias antes da tomada de posse de Barack Obama, deixa mais de 1400 mortos palestinos – entre os quais 138 crianças – e um enorme rasto de destruição que paralisa a vida de Gaza.
A operação foi cuidadosamente planeada ao longo de meses e as vítimas civis não são “danos colaterais”. São uma consequência da política de terror (doutrina Dahiya) que Israel tinha testado no Líbano em 2006 e que visa provocar o grau máximo de destruição e de sofrimento nas populações para as levar a revoltar-se contra os seus governantes. A população de Gaza estava ser punida por, em eleições internacionalmente reconhecidas como livres e democráticas, ter dado ao seu voto aos candidatos errados, na óptica de Israel e seus aliados.
Inquéritos conduzidos por investigadores internacionais isentos reunirem evidência de que Israel tinha cometido inúmeros crimes de guerra durante a “Operação Chumbo Fundido”. Estão documentados, nomeadamente, os massacres das famílias Samouni e Al-Daya, o assassinato de portadores de bandeiras brancas, a utilização de bombas incendiárias de fósforo branco em áreas populacionais, a interdição de prestação de socorro a vítimas.
A “Operação Chumbo Fundido” chocou o mundo civilizado pela sua dimensão e brutalidade. Mas não podemos esquecer que, no prosseguimento da sua política de limpeza étnica da população palestina, que vem pondo em prática desde a sua fundação em 1948, o Estado de Israel, todos os dias, em maior ou menor escala, leva a cabo agressões contra palestinos, cerceando-lhes direitos humanos fundamentais, inviabilizando a constituição do Estado Palestino com total desrespeito pelo direito internacional e humanitário.
Ainda na semana passada, as forças armadas israelitas mataram um habitante de Gaza que procurava sucata dentro da “zona tampão de segurança” (esta “zona” estende-se entre 500 e 1500 metros dentro da Faixa de Gaza, ocupando cerca de 17% do território e 35% da terra arável, afectando a vida de mais de 100.000 habitantes de Gaza). Já esta semana, em Gaza, na terça-feira, uma criança de três anos foi morta e a sua mãe e irmão foram feridos num ataque retaliatório conduzido pela força aérea de Israel, e, na quinta-feira, novos ataques punitivos com mísseis feriram mais dois palestinos. Enquanto isto, Israel anuncia planos para construção de mais 1.400 casas de colonos, em Ramat Shlomo (Jerusalém Leste) e na Margem Ocidental, em claro desafio aos apelos dos Estados Unidos e da União Europeia para viabilizar o frágil processo de paz que John Kerry tenta pôr de pé.
Neste quinto aniversário da bárbara agressão contra a população indefesa de Gaza, evoquemos a memória das vítimas mas, conscientes de que só a solidariedade internacional pode reverter este estado de coisas, unamo-nos para exigir que, ao povo palestino, seja reconhecido o seu direito a viver em paz e liberdade no seu Estado soberano e independente, nos territórios que Israel ocupa desde 1967, com Jerusalém Leste como capital, e com uma solução justa para os direitos dos refugiados.
Lisboa, 27 de Dezembro de 2013
A Direcção Nacional do MPPM